quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva

Amedeo Modigliani / Libellés


às vezes
quando olho
dentro dos meus olhos
vejo nada
outras vezes
vozes
ecos de um passado
não muito distantes
que inundam minh'alma
são meus fantasmas
meus medos
minhas angústias
que incomodadas
tentam me obscurecer
são como projéteis
zunem em meus ouvidos
atravessando meus corações
rasgam a carne do meu peito
e me expõem ao mundo
fico nu
me compadeço
volto ao lar
sem saber onde estou
então, vivo!


.como são impactantes os seus olhos.

domingo, 22 de novembro de 2009

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo



um poema pra você

você não quis
(soube)
domar a minha fúria
e agora me diz
que sou mais um
no teu pântano de flores

fez tudo e mais
(pouco)
do que devia
mas não fez
de fato, você não fez
o que mais nos apetecia

deixou a peteca
(cair)
e tem a pachórdia
de tatuar co'as unhas
na minha testa: "babaca"
foi pra me magoar

mas a navalha
(língua)
que me punge
lambe outros vales
inválidados pelas palavras
que proferiu sem exatidão

devoro um a um
(deveras)
teus pedaços de mulher
e levo-os comigo toda noite
feito fera que se retroalimenta
de angústias... de eras

Linhares

sábado, 21 de novembro de 2009

Pré-póstumos não-meus...

Gabriel Utasi


Lebowski e eu

Entramos no elevador Lebowski e eu. Fedíamos a maconha. Notamos que o espelho no qual costumávamos olhar nossos reflexos, o espelho havia sido retirado de uma das três paredes que constituíam o elevador. Depois, que também as três paredes que constituíam o elevador igualmente tinham sido removidas. Achamos que a porta, a porta que dá acesso ao elevador, pensamos que a porta continuava alí abrindo e fechando, porém logo vimos quanto estávamos errados, não havia mais a porta. Então olhamos para cima, qual não foi nossa surpresa, Lebowski e eu nos deparamos com um teto que não havia mais. Aquele era um roteiro de decepções seguidas de decepções. Isto é um roteiro de decepções seguidas de decepções, disse-me Lebowski. Foi aí que juntos olhamos para o chão e já não havia chão. A coisa degringolara completamente. Foi necessário que Lebowski e eu flutuássemos. Mas flutuar assim de última hora?, reclamou Lebowski.

Leprevost, o Luis Felipe

Cartas para a Mãe


- ô, mãe? sabe quando eu te disse que não ia mais me acabar... e que a vida ia voltar a ser normal? então, mãe, eu... tava mentindo. é que eu acabei de chegar de buenos aires e lá eu conheci uma garota que me perverteu as idéias, me virou de pernas pro ar. fiquei bem doidão por ela e... é que ela tem uma quedinha por coisas pesadas e gosta bastante da noite, sabe mãe? ela é bem massa, eu tô gostando pra caralho dela, mas... acho que a senhora não vai gostar muito dela... ela tá vindo pra cá daqui um mês e disse que ia gostar muito de te ver. acho que você também vai gostar dela, apesar das quedinhas dela por coisas pesadas e pela noite... olha, mãe, eu tô aguentando firme por aqui e acho que amanhã eu vou encontrar aquele cara que eu te falei da última vez... ele disse que queria ter uma conversa comigo, o que a senhora acha? acho que sim, né? devo ir ver o cara, né? pois é, ele disse que eu devia ir ver mais o pai de vez em quando, mas a senhora sabe, né? o pai anda meio doidão por causa daquelas palestras que ele andou assistindo na tv. disse que vai comprar uma bicicleta e vai até buenos aires pra ver se encontra os tais documentos. eu não saquei qualéra a do pai, mas dei a maior força pra ele. eu disse que ele poderia até se encontrar nessa viagem dele, e que as coisas poderiam melhorar depois dele passar por buenos aires... ele até que podia dar umas palestras em buenos aires, o que você acha? falar pras pessoas o que ele pensa, ou até dizer pros outros algumas verdades que ele sempre esconde, sabe? aqueles papos dele, aquelas viagens que ele sempre tem, sei lá... o pai é um cara bacana mas tá meio doidão por causa da tv... eu contei pra ele sobre a tal garota de buenos aires e ele me disse que quando ela chegasse ele já estaria bem longe daqui, talvez cruzando a fronteira, ou sei lá... o pai tá meio doidão com essa história de tv... ó, mãe, veja isso, vou deixar aqui em cima... é uma foto da viagem que eu fiz pra buenos aires, quando eu conheci aquela garota que gosta de coisas pesadas e da noite. você tá me ouvindo, mãe?

Linhares

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Pré-póstumos não-meus...


salve, a todos os amados leitores deste humilde espaço de procrastinação(?)!

para hoje, quem perde o cabaço aqui é o meu amigo (e safado de plantão) Filippo Mandarino.
como ele mesmo relatou em seu blog, ele saiu de uma obscuridade de três anos e está de volta ao limbo libertador das palavras.
ponhei este poema abaixo e anexei-o aos blogs phódas alí do lado. então, apareçam por lá também.
beijos!

---

o cara mais chapéu de todos os tempos

ele queria navegar
no meio da corrente sanguínea
de todos os tempos
com todos os ventos
soprados da maresia

pra ser uma célula
ele tragou as sequelas
de seus amores
mortos no asfalto
de estrelas belas.

O cara mais chapéu de todos os tempos
É um japonês que trabalha no circo
Dando piruetas ao avesso

FMAN

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


ó, piazada. vou ponhá aqui de novo esse poema que fiz pra nóis, tá bão?
ontem fui ver o show do leprevost e do nero e descobri, veja só, que tudo isso é mais do que verdade: é verdade verdadeira, posso garantir!
fui embora meio cedo, apesar de querer ficar mais com vocês, mas não cabia mais álcool no corpo e a minha moto já tava querendo andar sozinha, hehe.
o show foi massa pra caralho. as meninas cantaram em coro (eu também), igual ao da igreja dos passarinho. acho que tava todo mundo que devia estar lá, né?
fiquei bem feliz de estar alí, ontem.
mas por hoje é isso. chega de melodrama.
valeu Turminha!

---

aos (meus) amigos

porque são vocês que estão aí, sentados
com os olhos cheios de lágrimas
de alegria
de ver espelhado em meu peito
as suas próprias fotografias
porque são vocês
que desse lado amam sem pedir
trocado
são só doação
que abnegam seus desejos por causa dessa
maldita dor que é comum a nós todos
que possuem um colo tão grande
de deitar
cafuné toda noite
em meio a toda essa nossa boemia
que nos sustenta
que alimenta com migalhas polvilhadas
nossa alma vadia
porque se eu ainda vivo e tenho
vontade (porque) existir
se eu ainda amo e tenho
essa pobre inocência de ridicularizar
a mim mesmo
é porque é em vocês que vejo
todos os meus desejos
todos os que são meus e que são seus
que se bastam
em todas as nossas rodadas
nossas latas amassadas
pelos corpos uns nos outros
sorrindo
da vida a doidado
na beira do fio do meio
no meio da vida uns dos outros
se tudo o que tem um sentido
tem um sentido
é só por causa
dessa nossa réu ação
culpada em todos os casos
descasos
percalços
nossos olhos descalços
que só encontram paz
quando se entrelaçam na noite
bandida dos nossos dias.

Linhares

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo




talvez, eu mude o mundo
com minhas mãos sujas de um sangue vazio,
cristalino como a água que você bebia
toda vez que me beijava;
talvez, eu mude a mim mesmo
com todas as ferramentas
que você usou para me ferir
e siga sozinho com a mesma fúria
que me desperta todas as manhãs.
já não amo mais como antigamente,
e isso é mal para aqueles que gostam de sonhar,
ou que ainda sonham,
como o único refúgio de viver.


Linhares

domingo, 15 de novembro de 2009

Analfabeto Sentimental

Foto sem crédito


o menino assistia a tudo calado:
voavam passarinhos pela sala
feito vasos e roupas velhas.
uns saíram pela janela
e esparramaram pelo chão.


Linhares

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo




e daí ela me deu um beijo no rosto e afagou meu braço de leve
(mas pude sentir o peso de todas as palavras - mal - ditas, encalacradas na garganta).
como de costume fiquei sem ação, imóvel.
passivo? acho que não.
apassivado.
feito um cão, aos pés da mesa a espreita de um pouco de comida (carinho)
mas, ainda um cão, e disso não me esqueço.

dentro de todo cão apassivado ainda mora um lobo que uiva em noite de lua cheia.

Linhares

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo

Foto sem crédito


07:45. Um forte barulho na porta de entrada. Ela estava cochilando na rede da varanda. Despertou assustada e correu para ver o que era. O sol já despontava lindo e amarelo no horizonte. Ainda estava de roupa: tinha esperado a noite inteira. Esfregou os olhos e olhou pelo olho mágico: ninguém. Mas conseguia ouvir uma respiração pesada pelo outro lado da porta. Viu uma sombra pela fresta e bem devagar começou a abrir a porta: "tá lá o corpo estendido no chão...".
- Filho da puta! Eu devia deixar você dormindo aí. Porque ao menos você não me ligou pra avisar, hein? Sabe que eu fico aqui pensando que um monte de merda podia ter acontecido! Porra! Eu não sou tua mãe, nem tua mulher, nem nada. Mas, é só um pouquinho de consideração pra quem se preocupa com você!
Ele não falou nada. Não conseguia mexer um músculo sequer. Toda a sua energia ele havia gastado tentando subir as escadas até o apartamento. Esse pequeno monólogo ela deu enquanto arrastava o corpo até o chuveiro. Ele não era grande, nem pesado, mas pruma mulher pequena já era academia pra semana inteira.
- Entra aí! Eu vou ligar uma ducha morna e você vê se se lava. Você tá todo cagado. Você é um bosta, viu?!
Era quarta-feira de cinzas, quando o corpo tem de jejuar o Mardi Gras, e manter abstinência. Era hora de purificar a alma, e segundo o que estava alí "estendido no chão", a purificação já havia começado há algumas quadras.
Ela acendeu um cigarro; sentou na tampa da privada; ficou observando o candango se lavar.
- O pior é que eu gosto de você. E você tá se martirizando por algo que não é mais culpa sua. Você bebe feito o Cão, chega todo dia arrastando os bofes, só reclama e, além disso, não abre um sorriso pra mim. Tô ficando cansada disso, sabe? Cansada de bancar a tua babá. De te tirar da fossa três vezes por semana. Onde você pensa que isso vai dá? Meu chapa, quanto mais você se caga todo, mais as portas do cemitério se abrem pra você. Agindo assim, você não passa de um merda. Mas, ok. Já desabafei e, também, você não vai lembrar de metade do que eu falei. Termina aí que eu vou pegar uma toalha pra você. Vou deixar um café na garrafa se você quiser.
Seus olhos a acompanharam. Ele ouviu tudo calado. Não estava tão mal assim. Tirando dois metros de cada lado, ele estava dando uma de bêbado pra ver a reação dela. Mas, concordou. Não se sabe porque, mas naquele momento, só conseguia pensar como ela é linda. Riu. Tem horas que a gente não sabe muito bem no que pensar e pensa nas coisas mais improváveis, porém, mais verdadeiras. Eu acho que ele tinha medo de se apaixonar novamente, e essa mocinha estava tirando ele do chão. "Quem sabe", pensou ele com certa timidez, e calou-se. O certo é que aquele não era o momento para mudanças drásticas, mas, prometeu que durante a Quaresma não iria beber uma gota de álcool.
O próximo drink: só na companhia do coelinho da Páscoa.

Linhares

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Pré-póstumos não-meus...

Les jours gigantesques / René Magritte


depois de 56 páginas de um conflito que parece não ter fim, ela diz:

"...corta essa de solene, desce aí dessas alturas, entenda, ô estratosférico, que essa escalada é muito fácil, o que conta mesmo na vida, é a qualidade da descida; não me venha pois com destino, sina, karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa parafernália enfim que você batiza bizarramente de 'história'; se o nosso metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções racionais, pouco importa que sejam sempre soluções limitadas, importa é que sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um - essa questãozinha que vive te fundindo a cuca - o que conta mesmo é mandar a bola pra frente, se empurra também a história co'a mão amiga dos assassinos; aliás, teus altíssimos níveis de aspiração, tuas veleidades tolas de perfeccionista tinham mesmo de dar nisso: no papo autoritário dum reles iconoclasta - o velho macaco na casa de louças, falando ainda por cima nesse tom trágico como protótipo duma classe agônica... sai de mim, carcaça!"

Raduan Nassar
Um copo de cólera / O esporro

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pré-póstumos não-meus...

Foto de Michael Papendieck


"... eu só sei
que me entregava
inteiramente
em suas mãos
pra que fosse
completo o uso
que ela fizesse
do meu corpo".

Raduan Nassar
Um copo de cólera / O Banho

segunda-feira, 9 de novembro de 2009


Harpias voam pelo palco fazendo a Anunciação.
Repetem em coro por três vezes.


- Não existe culpa.
Não existem culpados.
Somos todos perdedores
dos nossos próprios joguetes.
Somos produtos,
manipulações.
Esqueçamos o passado;
que se enterre a última chama de esperança
sob o pó do último homem
que caminhou por sobre as pedras de Gaia.

TRÊS VIVAS PARA A ERA DA MÁQUINA!

Saem rindo em guinchos estridentes e elétricos.

(continua)

Linhares

sábado, 7 de novembro de 2009


"Nenhuma garota apareceu naquela noite,
o rádio não tocou nenhuma música legal.
Matei todo o garrafão,
vomitei na beirada da cama e dormi.
Não me senti sozinho, nem muito triste.
Na verdade mesmo, não senti nada.
Só aquele gosto acre
e o velho fantasma querendo sair de dentro do estômago."


Mário Bortolotto

"...Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado de frente para a janela, por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a comtemplava tão pura e nua, ela disse: 'meu Deus, seus olhos estão esverdeando". Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um momento chamasse outro; inconscientemente compúnha-mos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento, lento bailado..."

Rubem Braga, Os Amantes

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


a vida passa assim:
na metade
já estamos no fim

Solda

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pré-póstumos não-meus...



cansaço

Ando cansado de falar
Da depressão dos dias
Do dilatar das ruas
Frente aos passos murchos
Da multidão insone.

O silêncio das estações
De ônibus as três da matina,
O silêncio dos prédios
Abandonados aos fantasmas
Suicidas não me metem
Mais medo.

Nem ao menos ouso
Sentir medo de mim.
Ando cansado disto:
Da carícia dada por dentro
De dentro das ondas de ego
Que abalam meu estômago.

As coisas que me cercam
As coisas que me cercam desmancharam
Meu espírito.
O que será de mim
Esta mancha desbotada
No escuro do quarto?

Não me importo mais com a morte
Em meus poemas baratos

Não me importo mais com a morte
Em noites de temporal
Em dias de escuridão
Em noites de agonia e dor

A minha morte não interessa
Para a literatura.

Alexandre França

domingo, 1 de novembro de 2009

aos (meus) amigos

porque são vocês que estão aí, sentados
com os olhos cheios de lágrimas
de alegria
de ver espelhado em meu peito
as suas próprias fotografias
porque são vocês
que desse lado amam sem pedir
trocado
são só doação
que abnegam seus desejos por causa dessa
maldita dor que é comum a nós todos
que possuem um colo tão grande
de deitar
cafuné toda noite
em meio a toda essa nossa boemia
que nos sustenta
que alimenta com migalhas polvilhadas
nossa alma vadia
porque se eu ainda vivo e tenho
vontade (porque) existir
se eu ainda amo e tenho
essa pobre inocência de ridicularizar
a mim mesmo
é porque é em vocês que vejo
todos os meus desejos
todos os que são meus e que são seus
que se bastam
em todas as nossas rodadas
nossas latas amassadas
pelos corpos uns nos outros
sorrindo
da vida a doidado
na beira do fio do meio
no meio da vida uns dos outros
se tudo o que tem um sentido
tem um sentido
é só por causa
dessa nossa réu ação
culpada em todos os casos
descasos
percalços
nossos olhos descalços
que só encontram paz
quando se entrelaçam na noite
bandida dos nossos dias.

Linhares

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo

encolhido feito tatu
viu o sol por entre as cortinas
feito guerreiro
virou-se pro lado de lá
donde os olhos fugidios
ainda enxergam
o que o coração tenta cegar

Linhares

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo

a vida inteira
essa latrina entupida
uma mecânica ilógica
pensou que era sonho
vivendo uma cardiofisioerótica
saturada de risos
transbordando em lágrimas
nas paredes do teu coração
exprimido
sangrando

da fé só restou a cruz
e os pregos cravados
sem nenhuma luz
nas palpebras secas
dionisíacas
e a sensual sensação
dos teus poros chorando
nossa (des)-ilusão
teu corpo sagrado
arroz com feijão

nos teus pêlos
um banho de vida
mulher
quer acordar?
só mais uma vez
só se você quiser

recostado nas tuas íngremes pedras
na tua montanha de prazer e dor
lugar de um só querer
quiçá
de bom grado


Linhares

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo

Cheiro de Saudades

hoje as palavras estão corrompidas
as mesmas palavras que um dia
foram jóias
guardadas num cofre
pra não se perderem

de vez em quando precisamos
dar uma volta ao passado
e somos vitimas de falsas lembranças

a memória tem suas alucinações
a sublime obscenidade diz
que a morte tem
cheiro de saudades

Octavio Camargo e Chiris Gomes

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo

Peque tudo o que você tem lido
E tudo o que você tem ouvido
Pegue toda pequena informação
Obstruída em sua cabeça
Daí jogue um jogo sensato
Esprema para fora de seu cérebro sobrecarregado
Você se sentirá bem melhor
Quando você limpar sua mente
Eu sei que é chato você tentar
Você perde o controle e gostaria de saber a razão do porquê
Eu sei, é difícil limpar sua mente.
Você perde o controle
A vida termina, você está morto.
Agora você pode me perguntar porquê, porquê um céu tão azul.
De tantas cores em uma paleta
No qual você pode tentar mudar
Seu cenário mental
Há como escapar
Você se sentirá muito melhor quando limpar sua mente
E breve você verá
Um caminho melhor a seguir
Você irá ver a pessoa que você procurava ser
Você tem que ser
Pegue sua nova cabeça
Quando toda aquela merda for apagada
Você se sentirá muito melhor quando limpar sua mente
Eu sei que é chato você tentar
Você perde o controle e gostaria de saber a razão do porquê
Eu sei, é difícil limpar sua mente
Você perde o controle
A vida termina, você está morto.
Sua vida – é um depósito de lixo pecador
Misturado com a merda imprestável acumulada do passado
Agora você foi jogado de encontro a parede
Sua vida – Uma coleção repleta de conceitos
Tantas teorias
Bem dadas a você
E você não dá conta de todas elas
É a sua vida!

É a sua vida!


Pennywise

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

especulações sobre o amor simples

posso querer esquecer
mas se esquece por aí mais facilmente
guarda-chuvas que amores
e se esquece infinitamente mais
canetas que guarda-chuvas
mas eu não, eu sou o melhor em
encontrar canetas para
continuar escrevendo
e escrever é lembrar do futuro

Leprevost, o Luis Felipe

terça-feira, 20 de outubro de 2009


Acho que ninguém tem necessidade de pornografia. Precisamos de amor verdadeiro. E precisamos também de um pouco de espírito e religião e felicidade. Mas tudo isso exige tempo e silêncio e reflexão. Por isso nos perdemos. Porque vamos depressa demais, com muito ruído ao redor. O ruído entra na gente e agimos compulsivamente, sem refletir.

Pedro Juan Gutiérrez

sábado, 17 de outubro de 2009


.cardiofisioerótico.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva


"... porque a única chance de dignitude
está dentro da tua alma,
ou onde os pensamentos vagueiam,
lá perto donde ecoam as verdadeiras coisas
que só nós conhecemos,
porque só nós, sozinhos,
sabemos da importância
de ecoar um na alma do outro".


Linhares

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva


Estava lendo um livro que peguei por acaso na prateleira e que abri, ao acaso, em qualquer página. Numa linha qualquer estava escrito: "...e veio a brisa fria que anuncia o outono. Ele levantou da cadeira, vestiu seu casaco, e caminhou lentamente até a janela. Fechou-a. Não havia mais beleza para olhar; não havia mais flores em seu jardim. A paisagem já não era a mesma. Saiu pela porta esperando que a chuva viesse e o levasse embora...".
- Esses dias eu vi um quadro que parecia uma janela. Não sei ao certo... Acho que era um quadro de uma janela, ou pintado sobre uma janela, ou coisa parecida.
- E havia flores?
- Na janela?
- No quadro.
- Foi quando eu desliguei o rádio e fui ver o que havia lá fora.
- Deve ser surrealista...
- Tava tocando aquela música que o Al Pacino é um cego...
- E deu vontade de dançar.
- Quer dançar?

Linhares

Pré-póstumos não-meus...

especulações sobre o amor simples

conduzimos os instintos
de modo a falarem baixo
acarinhamos um o outro
com sopros, não com dentes
nossos poros, gotículas de ternura
e somos líquidos outra vez
exalamos vapor, penetramo-nos
como nuvens que se costurassem

Leprevost, o Luis Felipe

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva

Eu? Te amo

Quem foi que inventou
Essa história de amor em primeira pessoa,
Se no reflexo dos teus olhos vejo nós dois?
Perdoa meu egoísmo, meu altruísmo,
Meu complexo de achar que certo sempre estou
Perdoa minha indecisão de te amar ou te amar.
Há dias que passam e noites que vêm
E sempre quando me levanto
Sinto o gosto amargo atravessado na garganta
Dos corpos bebidos sem nenhum pudor.
Sinto-me vendido, usado, maltrapilho
Um velho ressequido em seu próprio rancor.
Perdoa meus gestos e os meus desafetos
Que em pura volúpia te fizeram assim.
Se fosse correto riscar meu caminho
Usaria teus traços para fazer, enfim,
Da tua estrada a minha
E do nosso enlaço o porvir.


Linhares

Sobre o lapso de tempo na memória

Mulheres

De dentro do quarto escuro
Procuro pelas longas cabeleiras
Madeixas deixadas pelo caminho.
Da porta de entrada à curva da praia
Do café da Rua Presidente ao vigésimo quinto andar
Do Bar Saudade ao cais do porto
Procuro por Anas, Marias, Letícias
Procuro Valérias, Condessas, Artistas
Prostitutas, Camélias, Equilibristas
Renatas, Poemas, Bailarinas
De véu, grinalda e pailleté
Descalças, perdidas
Violentadas, repetidas e até
Sujas, rotas, tingidas
De puro veneno ou riscadas de giz
Cadocas, Teresas hipocondríacas
Da vida noturna e de olhos caídos
Belas, singelas, meninas
Avessas, danadas Marinas
Marotas, Denises, Beneditas
Lavadeiras de pele suada, taxistas
Poetisas, sozinhas, pervertidas
Girando e girando e girando anéis
Noivas, atrizes, douradas, desnudas
Adúlteras e outras além
Mulheres de alma e amor oblativo
No sangue e na paixão toda manhã
Purificados pelo dom singelo de ser
Todas elas, mulheres.


Linhares

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Núcleo de Dramaturgia SESI-PR

"Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro.
Não espere o juízo final.
Ele realiza-se todos os dias".
Albert Camus


Cena 4

Escuro.
Um homem entra em cena caminhando lentamente.
Silêncio longo.
O homem acende uma vela. Vê-se uma figura perturbada, de barbas e cabelos longos e olhar infinito; de roupa surrada e velha. Aparenta ter o triplo da idade.
Está verdadeiramente cansado.
Vê-se na penumbra uma mesa velha com vários objetos e vários crânios no chão. O cenário tem de lembrar uma sala de comando de um navio velho: cordas, garrafas, ratos, goteiras, mofo, ferrugem e etc.
O homem caminha pelo espaço e pouco a pouco acende velas e as coloca em alguns crânios pelo chão.
Enquanto caminha o homem resmunga.

Homem – Estão todos mortos... estão todos mortos... todos mortos... todos mortos... mortos...

(o silêncio ecoa pela sala)

Homem – (conversando com os crânios) Devo assegurar que nada vai dar errado.
Movimentos lentos e constantes.
Nada vai dar errado.
Nada.

(silêncio)

Homem – (conversando com um crânio) Hoje, teus olhos estão mais azuis do que ontem. Só de poder sentir tua boca eu já fico todo arrepiado. Tuas pernas, braços e esse colo... (começa a beijar o crânio que aos poucos vai ganhando a forma de uma mulher).

(os dois dançam pela sala)
(a mulher evapora)


Homem – Pra onde você foi? Pra onde você foi? Até amanhã, meu amor...

(volta a caminhar pela sala)

Crânio 47 – (rindo) E você ainda acha que ela vai querer alguma coisa com você?! Você sumiu da última festa que vocês se encontraram. Ela disse que nunca mais ia te ver.
Homem – Cale essa tua boca suja! Vejo em seus olhos que ainda me quer.
Crânio 34 – Você deve ser louco!? Ainda ontem estavam dizendo por aí que você fugiu porque estava louco!
Crânio 47 – É verdade!

(os dois crânios riem)

Homem – Calados vocês dois! Me deixem em paz... me deixem em paz... me deixem em paz...

(o mar bate violentamente contra o casco do navio)

Homem – A chuva lá fora está mais forte. (algumas velas apagam / ele as acende).
Devo assegurar que nada vai dar errado.
Ainda chegaremos.
Estão nos esperando.

(um crânio transforma-se em um homem bonito e bem vestido)

Homem bonito – Está tudo pronto, Alberto?
Homem – Meu senhor, não vi que estava aqui! Desculpe-me, arrumarei suas coisas imediatamente.
Homem bonito – Incompetente! Animal! Você está fedendo! Já não te falei que o banho nessa casa é obrigatório e diário!
Homem – Sim, senhor. É que...
Homem bonito – Basta! Arrume minhas coisas. Devo partir em poucas horas.
Homem – Sim, senhor. Claro, senhor. Como quiser... eu sei... é claro... a culpa é minha... é minha... é minha...

(o homem começa a limpar e arrumar os objetos em cima da mesa freneticamente, colocando-os em ordem)

Crânio 47 – Sim, senhor!
Crânio 34 – Não, senhor!
Crânio 47 – Sim, senhor!
Crânio 34 – Está claro, senhor!
Crânio 47 – Pois não...
Crânio 34 – Pois sim...
Crânio 47 – É pra já!
Crânio 34 – Mas é claro
Crânio 47 – Às suas ordens
Crânio 34 – Sua alteza
Crânio 47 – Majestade
Crânio 34 – Currupaco
Crânio 47 – Sim senhor
Crânio 34 – Currupaco
Crânio 47 – Eu sei senhor
Crânio 34 – Currupaco
Crânio 47 – Limpei senhor
Crânio 34 – Currupaco...
Crânio 47 – (explode em risos)
Crânio 34 – (imitando um papagaio) já limpei já servi já cocei já fervi já deixei já tossi já senhor não senhor obrigado eu lhe imploro seus trocados minha nobre tão gentil sou fiel ao trabalho o seu bicho dessa corja proletário maltrapilho escarrado pela própria indulgência perdão inocência não fui eu não fiz nada não não senhor por favor aí não minha esposa são meus filhos o senhor não não não
Crânio 47 – (rindo desesperadamente)

(o riso toma conta da sala e ecoa por algum tempo / ao mesmo tempo as palavras ditas pelo Crânio 34 reverberam dentro da cabeça do Homem)

Homem – (grita) Silêncio! Silêncio pelo amor de Deus! Eu vou matar vocês!
Crânio 34 – Nos matar? (ri)
Crânio 47 – Estou morto de tanto rir. Você é um fracassado Luis Alberto.
Crânio 34 – Um fracassado, é isso que você é.
Crânio 47 – Sim, um pobre coitado que limpa a cova da própria existência.
Crânio 34 – Todos os dias, lembre-se, todos os dias, dia após dia, com chuva e com sol. Limpa, limpa, limpa, limpa, limpa, limpa, limpa, limpa, limpa...
Homem – Calados! Vocês não sabem! O navio já está quase chegando e a chuva vai passar! Você não estão vendo?
Crânio 34 – O que aconteceu com ele? Perdeu o espelho? (ri)
Crânio 47 – Acho que na última batida da água no casco ele bateu a cabeça.
Homem – Aonde coloquei minhas anotações? Aonde?

(os crânios correm pela sala e derrubam o Homem pegando alguns papéis de seu bolso)

Crânio 34 – Veja só! Veja só! “Com amor, para o único amor da minha vida...”
Homem – Me devolva isto! É a única lembrança de...
Crânio 34 – Oops! Engoli! (ri sarcasticamente)
Homem – Seus miseráveis! Vou matar vocês dois! (joga-se no chão tentando pegar os dois crânios, passa por debaixo da mesa e bate nas pernas de uma mulher)

Homem – Quem é você? O que faz aqui? Cadê aqueles dois safados?
Mulher – Trago notícias.
Homem – Onde estão vocês... coisa boa não deve ser. Vindo nessa chuva só pode ser obra do acaso.
Mulher – (coloca a mão na cabeça do Homem que desmaia)

(as velas se apagam)
(silêncio longo)

Um homem entra em cena caminhando lentamente.
Silêncio longo.
O homem acende uma vela. Vê-se uma figura perturbada, de barbas e cabelos longos e olhar infinito; de roupa surrada e velha. Aparenta ter o triplo da idade.
Está verdadeiramente cansado.
O homem caminha pelo espaço e pouco a pouco acende velas e as coloca em alguns crânios pelo chão.
Enquanto caminha o homem resmunga.

Homem – Estão todos mortos... estão todos mortos... todos mortos... todos mortos... mortos...

(o silêncio ecoa pela sala)

Homem – (conversando com os crânios) Devo assegurar que nada vai dar errado.
Movimentos lentos e constantes.
Nada vai dar errado.
Nada.

A cena repete-se mais algumas vezes com ecos do texto, numa velocidade quatro vezes maior. Em alguns momentos bem pontuais, vemos os crânios do chão se agrupando em volta do Homem e arrancando pedaços de seu corpo lentamente, até que o Homem se transforma em um dos crânios no chão.

(pausa)
(um déjà-vu)


Um homem entra em cena caminhando lentamente.
Silêncio longo.
O homem acende uma vela.


BLACKOUT


Linhares

domingo, 11 de outubro de 2009

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo

Otavio Linhares por Márcio Olesko


"a vida é sombra passageira
um pobre ator que faz o seu papel em cena
para depois ser esquecido.
é uma história contada por um idiota
cheia de som e fúria
e que não significa nada".


William Shakespeare / Macbeth

Ao amor, seja como for

Josi Ane, Otavio Linhares e Geléia de Mamão

Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança
Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo

Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança
Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo

(Dorme, dorme, filhinho)

Toquinho / David Nasser / Herivelto Martins

sábado, 10 de outubro de 2009

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo

Eu havia enlouquecido
E porque não restava mais uma gota em minh'alma
Tirei meu couro a navalha
Rasguei-me sem piedade
O coração dei aos corvos
Os membros atirei-os ao fogo
Pele sobre pele foi o que restou
Não como uma Fênix, nem como uma cobra
Apenas lhe digo que foi isso o que restou...

Linhares

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Manual do Dia em que Matei a Mim Mesmo




há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

---

Mulheres: gostava das cores de suas roupas; do jeito delas andarem; da crueldade de certas caras. Vez por outra, via um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina. Elas levavam vantagem sobre a gente: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas. Enquanto os homens viam futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam na gente, concentradas, estudiosas, decididas: a nos aceitar, a nos descartar, a nos trocar, a nos matar ou simplesmente a nos abandonar. No fim das contas, pouco importava; seja lá o que decidissem, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura.

---

É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa.

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Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade.

---

Se vai tentar
siga em frente.

Senão, nem começe!
Isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça.

Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,
Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação...

A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,
do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.

Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.


Charles Bukowski

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sobre o lapso de tempo na memória


Bom dia. Sonhei com você hoje. Como "com quem"? Com você. Não, é claro que não. Havia umas pessoas dançando, outras sorrindo, e outras... não me lembro. Se alguém se amava? Claro! O que você pensa de um lugar onde alguém não se ame. Imagina... sempre tem quem ame... sempre tem... Não. Não vi mais. Me disse que ia sair, viajar, não sei pra onde, mas que não ia sozinha. Itália, talvez? A Itália daqui até o final do ano é sempre congestionada, mas, mesmo assim, muito bonita, eu acho. Vai, claro que vai. Não consigo pensar nela saindo assim de mãos abanando, vai levar uns trocados prumas coisinhas de sempre, Duty-free, essas coisinhas que a gente traz quando viaja. Ah, sem dúvida que sim. Eu já estou querendo que nem volte mais. Porque? Como assim porque? E você ainda me pergunta porque? Como se não me conhecesse... Meu sonho era que ela pudesse sair do país e nunca mais voltar, que já levasse todas coisas juntas e mais uma meia dúzia de embrulhos que eu preparei e deixei na porta de casa. Não sei, não sei mais... E se la me ligasse agora? Não sei... Acho que eu boto tudo no carro, levo prum mato qualquer e toco fogo em tudo! O fogo renova, lembra? Depois vira fumacinha, vai pro céu e, quem sabe, não chove lá na Itália?! Hahahahahahaha.................

---

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.

Chico Buarque & Francis Hime

Revista Lama

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Núcleo de Dramaturgia Sesi-PR

A Valsa, Teatro da Trindade, 2000, com Susana Palmerston e Augusto Silva
"...uma mulher da idade do mundo
que transporta cinquenta sacos e ainda carrega um corpo.
Vivo? Morto? Ela o saberá, ou talvez não."
(Texto de apresentação da peça no catálogo de eventos da FNAC,
referente ao dia 31 de Março de 2000.)

---

Cena 2

Luz

Uma mesa no centro do palco com janta posta.
Duas poltronas em lados opostos do palco.
Entra mãe.
Cena congela.


Uma reflexão (pode ser uma voz em off, ou então, uma voz dentro da cabeça dela) – Olhando daí, posso até parecer estranha, mas não sou. Sou mais comum do que vocês podem imaginar. Talvez, assim, à primeira vista, e num teatro com pouca iluminação fique um pouquinho difícil, mas eu sei só pelo olhar de vocês que algumas pessoas já se identificaram comigo. Acho que é por causa da roupa que eu estou usando, não acham? Ou então pelo tipo físico, talvez? A decoração da casa... Talvez, vocês queiram perguntar algumas coisas pra mim, pra ver se vocês se identificam um pouquinho comigo? Eu ficaria muito feliz se aqui dentro hoje, alguém levantasse a mão ao final e dissesse “num determinado momento da peça eu me identifiquei com a senhora”... Enfim... Essa é a história de como matei minha família.

(pausa / silêncio)

Uma reflexão - Sim, eu tenho mais idade do que gostaria de lhes dizer, mais filhos do que posso amar, sou gorda o suficiente para não comer as coisas que mais gosto e daí tomo remédios para emagrecer, porque não agüento e como assim mesmo. Tenho um marido que não me satisfaz e uma mãe velha que já não tem mais serventia nenhuma aqui em casa, a não ser ficar ali no canto da sala preu lembrar que ela é minha mãe, que é velha, e que não serve pra nada. Não interessa pra mim que vocês saibam meu nome: ele é feio, brega e sempre que eu o escuto me sinto pobre e desarrumada. Tenho, como não poderia deixar de ser, dois filhos homens: Marcelo Eduardo e Ricardo Henrique. Detesto esses nomes, são longos, chatos de pronunciar, são duas coisas, são absurdos que...

(entra o pai)
(a mãe o acompanha com os olhos sem expressão)


Uma reflexão – Como ele consegue colocar uma camisa amarelo-claro e uma meia marrom e uma calça bege e mocassim com a barriga enorme os cabelos gastos os óculos tortos as pernas fracas as costas tortas a barba por fazer pêlos no nariz na orelha...

(o pai senta em uma poltrona, pega o controle da televisão e fica com ele em riste, congelado)
(entra a avó e senta-se numa das poltronas)

Uma reflexão – Não é maldade, mas olhem pra minha mãe... Se Deus não a levou ainda é porque ela deve ter algo de especial para ser feito aqui na Terra... Eu só não sei o que! Coitada da mamãe...

(pausa / silêncio)

Uma reflexão – Coitada de mim! Sou eu que levanto todos os dias de manhã pra levá-la ao banheiro, depois ao remédio, depois ao parque, depois ao banheiro, depois ao remédio, depois ao jardim e depois ao remédio e de volta ao banheiro e de volta pro quarto pra dormir... Que vida maldita... A minha, é óbvio! Onde eu estava? Me perdoem. Mamãe sempre me tira do sério com essa rotina.

(Marcelo Eduardo passa correndo pela sala)
(Ricardo Henrique passa correndo atrás de Marcelo Eduardo)
(O pai levanta-se e começa a fazer ginástica para a terceira idade)
(A avó senta na poltrona da TV e dorme)
(Marcelo Eduardo passa correndo pela sala com um skate nos pés)
(Ricardo Henrique passa com uma lata de tinta pintando a parede e senta-se à mesa)
(O pai dá comida na boca de Ricardo Henrique)
(Marcelo Eduardo entra correndo igual a um cachorro, passa por debaixo da mesa e senta ao lado da avó)
(A avó joga o controle da TV pra for do palco e Marcelo Eduardo fica parado)
(Ricardo Henrique sai correndo, passa por cima do pai e sai de cena)
(Marcelo Eduardo sai correndo atrás de Ricardo Henrique)
(O pai pega uma panela de macarrão de cima da mesa e começa a separar fio por fio os macarrões)
(A avó tem um ataque do coração e cai no chão)
(Marcelo Eduardo entra vestido de astronauta e atravessa a sala lentamente)
(Ricardo Henrique passa pela sala vestido de bailarina e dançando)
(Marcelo Eduardo enche o palco com bolhas de sabão )
(Ricardo Henrique sobe em cima da avó, se joga nas bolhas e sai)
(O pai cobre a avó com todos os macarrões esticados e volta para a poltrona da TV e, aparentemente, dorme)
(Marcelo Eduardo entra com o controle na boca e pára ao lado do pai)
(Ricardo Henrique entra em cena em uma maca de hospital ligado a dois tubos de soro e um eletrocardiograma)
(Marcelo Eduardo aperta o botão de “power” do controle e cai)

(silêncio longo)


Uma reflexão – Ah, me lembrei! Falava a vocês de como matei minha família, não é mesmo?! Bom, o natal sempre acontecia aqui em casa, então, perto das nove da noite muitas pessoas começavam a chegar, sempre na mesma ordem. Mas, isso não importa, não é mesmo? (um de cada vez vão se colocando à mesa) O fato é que preparei um jantar como esse, como de costume. Coloquei a comida na mesa, chamei a todos e pronto: família reunida. Comeram como porcos; saciaram suas gulas; falaram, arrotaram, cuspiram, levantaram-se e saíram. Isso já era perto das onze da noite: às doze, todos estariam mortos. Na época lembro-me ter ficado excitada com a idéia. Mamãe foi a primeira: começou a dar sinais de mal-estar quinze minutos depois do jantar. Achei que seria a última, velha maldita. Gostaria de vê-la gemendo por mais tempo, mas se Deus quis assim, não é mesmo? (ri timidamente) Depois foi Marcelo Eduardo, depois Pedro Henrique e por último esse pedaço de bacon fedorento e gordo. Todos foram caindo pela sala um após o outro. Eu fui presa logo depois e mandada prum manicômio. Fui tratada e, sete anos depois, liberta novamente. O diagnóstico? Disseram o nome de três coisas diferentes e que eu devia ser acompanhada semanalmente: não dou a mínima pra isso. Enfim, vocês já devem estar se perguntando: “Ok! E daí?” E daí que eu casei novamente... e hoje é natal!

(sorri sarcasticamente)
(começa a tocar uma valsa)
(a mãe lentamente dança pelo palco beijando um por um seus familiares que se levantam e se colocam à mesa para jantar)

BLACKOUT

Linhares

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva

Foto de Alessandra Haro


Agora, você tinha de estar aqui
É o momento que alguém pintou
Um quadro que a gente ainda não viu
Mas que a vida há de pintar.

Agora, aqui, falta o teu (meu) sorriso.

Linhares

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Trilha da Semana Que Vem

Pedaço de mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Chico Buarque

domingo, 4 de outubro de 2009

Sangrando

Daniel Gonzaga e Gonzaguinha

sábado, 3 de outubro de 2009

Sobre o lapso de tempo na memória

Foto de Alessandra Haro

Hoje eu te vi pela primeira vez, depois da última vez que te vi. Parece redundante eu te dizer isso, mas, lembro-me bem da última vez que te vi e sei que foi a última vez.
Na última vez que te vi, você estava de lilás. Um vestido até os joelhos e um par de meias listradas. Não me lembro a cor, mas, eram listradas. Tenho certeza, pois, fui eu quem lhe deu as meias para combinar com o vestido. Isso foi na última vez que te vi e, pela primeira vez, não te vi mais.
Dessa vez, eu te vi pela janela, como da última vez, quando te chamei e você ainda se arrumava para mim pela última vez. Lhe dei as meias que você combinou com um vestido, e com uma pequena bolsa a tiracolo você já se preparava para pular a janela, quando se deu conta dos sapatos, que pela última vez eu vi ao lado da cama, que coberta com uma colcha de retalhos coloridos escondia nosso barco.
Teve uma vez, não a última, nem a primeira, que navegamos em nossa cama em direção ao “nunca ido”. Você concordou, eu relutei. Foi a primeira vez que lhe disse não, mas não a última. Foi a primeira vez que você me olhou nos olhos e disse: “Que não seja a última vez”. E não foi. Mais algumas vezes nós nos permitimos navegar sem que você soubesse onde jamais iríamos chegar. Nunca vi nosso barco atracar, apenas navegar, e navegar, e navegar...
O sol, a primeira vez que não se pôs à nossa frente, pintou de baunilha um pedaço do nosso sempre. E, também, foi a primeira vez da primeira vez que me apaixonei por você. Apaixonei-me, ainda, mais três vezes por você. Até onde me lembro bem, e espero que não seja a última vez...

Linhares

sexta-feira, 2 de outubro de 2009


Tu, composição
Minhas mãos tocam
Desnuda meu eu


Linhares

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva


Chegou o frio de volta a Curitiba. Alegro-me como há muito tempo não se tem visto. Meto um casaco, um par de luvas, um cachecol vermelho e cinza com cheiro de guardado, um par de botas, e saio pra rua. Visito os mesmos bares de sempre; bebo as mesmas bebidas de sempre; vejo as mesmas pessoas de sempre. Mas, há algo de novo no ar. Não são as mesmas pessoas, nem as mesmas bebidas. Tudo parece renovado. Sinto como se há muito não sentisse mais esse prazer. Olho em volta e me admiro. O frio traz de volta o calor. Vejo mais abraços, mais beijos, mais afagos. Vejo tudo isso e ainda tenho tempo de me ver. É noite e não tardo a chegar em casa. Gosto de me sentir assim, de ver as pessoas se sentindo assim. São os mesmos velhos hábitos que transparecem; as mesmas velhas coisas que ressuscitam. Sinto-me feliz de ver em cada rosto diferente a felicidade que há tanto estava guardada dentro dos velhos bolsos dos casacos.
O vento frio que entra, agora, pela janela, traz o cheiro do inverno, traz de volta uma ou duas lembranças. Entra sorrateiro e se estaciona ao meu lado. Conversa comigo duas ou três palavras e se vai. Diz que, talvez, amanhã volte pra contar as novidades. Então, eu fico, assim, esperando pela sua volta que acalenta.
Como em Curitiba, nem todo calor é quente, eu espero, então, por esse frio que me esquenta.


Linhares

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva


Na mesa ao lado um casal namora em alemão.
Em meio a grunhidos e rosnadas os dois amam.
Sempre ouvi falar que não há língua falada ou escrita que traduza o amor:

Uma reflexão - Então, porque falamos tanto sobre o amor?
Uma outra reflexão - Deve ser porque é fácil falar do que não se tem.

O cara faz bolinhas de fumaça, como eu; senta-se, como eu; debruça-se em cima da mesa buscando o fundo da piscina dos olhos da menina bonita, como eu; tem a mesma predileção maldita por livros malditos, que aumentam ainda mais o abismo do entendimento sobre o amor; não passa de um safado-maldito, que goza palavras com sua boca suja, e conta mentirinhas aumentadas, e ri da risada alheia, mas que no fundo quer viajar pra Dinamarca pra se enfiar num buraco cheio de lama pra fugir de si próprio, e ver o mundo do alto de um arranha-céu e se sentir maior e melhor do que qualquer um, e ver todos os seus sonhos cuspidos junto com seus dentes em uma latrina de um bar fuleiro no bairro mais porco da cidade, e ver descer pelo ralo todas as suas esperanças de que algum dia alguma merda vai melhorar, pra acordar no outro dia e ver o sol estampado em todas as janelas do mundo, menos na sua...

Eu - Como eu?

Linhares

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Aqui Jazz



Orquestra Brasileira de Música Jamaicana / OBMJ

segunda-feira, 28 de setembro de 2009


"me afoguei na sua voz
lendo as palavras
que escrevia sobre você".

Alexandre França

Sobre o lapso de tempo na memória



Ontem, eu pensei: "ela está linda". Mas me virei para não dar sinais de rendição. Ela se aproximou: "olá". Um cumprimento singelo, acompanhado de um perfume... "Que cheiro é este"? Antes mesmo de um boa noite. "É o meu. Não lembra mais?" A ironia da resposta, seguida do cinismo da pergunta me congelou por um momento. Entrou no carro. Não abri a porta para ela em sinal de galanteio. Ela sentou, acendeu um cigarro, abriu a janela. "Para onde, James?" E disse rindo da minha cara de bobo. "Que tal uma banheira de espuma? Você e seu chofer, nus, bêbados de vinho?" Sabia jogar com sua ironia. Amava isso nela. Sabia agradá-la, tanto quanto ser agradado da mesma forma. As frases tinham sempre o mesmo peso: equilibradas. Compartilhávamos dos mesmos gostos e das mesmas chatices. Tínhamos, sim, bom gosto um pelo outro. Rodamos por quarenta minutos. Sabia aonde queria chegar, mas gostava de rodeios que a confundissem. Gostava de deixá-la sem saber onde estava. "Você é previsível. Me confunde preu não ter referência de nada. Gosto disso. Vai ter de me levar embora, depois..." Sua voz dava sempre um toque de sedução às palavras. Tinha malícia para pedir, mandar, e me submeter aos seus gostos. A fluidez dos seus gestos denotava prazer; seus movimentos eram leves como o vento... e era assim somente comigo. Pelo menos esta era a minha crença, era o que ela me deixava entender. Era o que ela queria que eu entendesse. Não demoramos a estacionar em frente a uma barraquinha de cachorro-quente. Ela ria de leve, sorrateira. Esperava um restaurante francês, ou alguma novidade gastronômica na cidade. Gostávamos de novidades. Mas, por hoje, a novidade é esta: cachorro-quente de barraquinha, em pé, e com refrigerante e guardanapo de plástico. Rimos por uns instantes. Ela comeu, se lambuzou, riu de novo... E eu parei por um momento, fixo em seu sorriso: ela estava feliz. Eu estava feliz. Neste momento senti que o nosso amor residia exatamente ali, nas coisas mais simples e não nos nossos fetiches. Estava tudo guardado em um sorriso, em um olhar, em um simples gesto de tragar. Tudo ali... O mundo em minhas mãos. E nas mãos dela, eu. Tão frágil quanto ela; tão mulher quanto ela; e ela tão apaixonada quanto eu. "Ei! Acorda! Você tá aí, parado, faz um tempinho olhando pra mim de um jeito estranho. Onde você tava?" Me assustei com o súbito grito que ela deu e comecei a rir. Riso de criança levada fazendo lambança. "Estava vendo nós dois velhinhos, sentados na varanda de casa, embalando o vento e fazendo cócegas um no outro. Demorei muito?" "Uns cinco minutos. Achei que não voltava mais". Ela falava assim: uma hora tinha o poder de me desintegrar com sua sedução, e no momento seguinte de ser moleca, e usar gírias, e falar rápido, e me cutucar... Ela me movimentava; agitava minhas moléculas; me aquecia o sangue; me tirava do lugar. E ela vinha com esse jeito fagueiro me levar de um lado para o outro às quatro da manhã; correr atrás de uma loja de conveniências 24 horas, atrás de uma marca específica de chocolate; sair na chuva; tomar um banho juntos; dormir no meio de um filme; olhar nos olhos e ver quem piscava primeiro... Ela tinha a impulsividade que me faltava. Talvez, eu tivesse o racional mais apurado pras questões práticas da vida que faltavam a ela. Mas, éramos sonhadores natos. Românticos por natureza. Dois amantes das práticas literárias; leitores compulsivos de temas semelhantes (a exceção dos meus Frank Miller e de suas Helena Kolody que não combinavam); consumidores vorazes e ratos de sebos. Mas o que eu mais gostava era de seus textos. Tinha a mão pra coisa; sabia correr o nanquim. Tinha uma sensibilidade aguçada pros sentimentos alheios; traduzia com perfeita exatidão as cores das fachadas da rua tal pela qual passamos ontem à noite, de forma magistral, sentimental, sempre muito apaixonada. Sua escrita tinha cheiro, eu cobrava isso dela: "Ao escrever ponha cheiro nas palavras, me deixe viajar..." E passávamos horas debatendo teorias e mais teorias, divagando sobre o nada e o tudo, e ela perdia o que estava escrevendo naquele momento. Eu era seu cúmplice e ela minha capanga: "Bonny & Clyde", "Torrada & Ovo", "Samba & Pandeiro". Ela me ensinou alemão eu a ensinei a pilotar motos ela me deu um anel de presente eu fiz um versinho tímido ela trocou a cor da sala eu lavei a louça ela viajou para a Escócia eu a levei num sex-shop ela estampou em minha melhor camisa um coração feito com vinho eu aprendi a ser sincero com ela ela me disse palavras de amor ao vento e eu não ouvi eu gritei uma vez com ela e me arrependi ela chorou de alegria quando viu bater um outro coração eu subi vinte andares correndo de pavor e emoção ela rezou aos pés do Cristo eu bebi demais e desmaiei ela quebrou a perna eu sorri pra ela ela apontou para uma estrela e fez um pedido eu pedi que fosse pra sempre ela desenhou as nossas inicias eu assoprei seus cabelos ela ganhou uma rifa eu perdi a chave ela me disse por que o céu é azul eu enchi sua cabeça de idéias ela perdoou eu calei ela viu o filme do Kurosawa e encheu a casa de rosas eu passei três dias sem comer ela...eu.

Linhares

domingo, 27 de setembro de 2009

Cheiro de saudades

.
hoje as palavras estão corrompidas
as mesmas palavras que um dia
foram jóias
guardadas num cofre
pra não se perderem
.
de vez em quando precisamos
dar uma volta ao passado
e somos vitimas de falsas lembranças
.
a memória tem suas alucinações
a sublime obcenidade diz
que a morte tem
cheiro de saudade

Octavio Camargo / Chiris Gomes

"Enquanto dura o baixo astral
as coisas caem dos meus bolsos e da minha memória:
perco chaves, canetas, dinheiro, nomes, caras, palavras.
Eu não sei se será mau-olhado.
Pura casualidade, mas às vezes a depressão demora em ir embora
e eu ando de perda em perda,
perco o que encontro,
não encontro o que busco,
e sinto medo de que numa dessas distrações
acabe deixando a vida cair".


Eduardo Galeano

sábado, 26 de setembro de 2009



"...ir deixando a pele em cada palco
e não olhar pra trás..."

Trilha da Semana


Passamos, eu e cia de teatro, a semana inteira pelo interior do PR, até desembocamos no Paraguay para umas muambagens, e esta música não me saiu da cabeça durante os 2000km, mas, tenho certeza de que não é a viagem propriamente dita o que me emociona nessa letra!

Na Carreira

E7M/9 E°(7M 9)
Pintar (pintar), vestir (vestir)
E7M/9 E°(7M 9)
Virar uma aguardente
E7M/9 E°(7M 9) E7M/9 E°(7M 9)
Para a pró...xima função
E7M/9 E°(7M 9)
Rezar (rezar), cuspir (cuspir)
E7M/9 E°(7M 9) G#m7(b5) C#7(b9)
Surgir repentinamente na frente do telão
F#m7 Am6 E/G# G°(7M b13)
Mais um dia, mais uma cidade pra se apaixonar
F#7/13 F#7(b13) F#7 F#7(b5)
Querer casar
B7/4(9) B7(9 #11) B7/9
Pedir a mão

E7M/9 E°(7M 9)
Saltar (saltar), sair (sair)
E7M/9 E°(7M 9)
Partir pé ante pé
E7M/9 E°(7M 9) E7M/9 E°(7M 9)
Antes do povo despertar
E7M/9 E°(7M 9)
Pular (pular), zunir (zunir)
E7M/9 E°(7M 9) G#m7(b5) C#7(b9)
Como um furtivo amante, antes do dia clarear
F#m7 Am6 E/G# G°(7M b13)
Apagar as pistas de que um dia ali já foi feliz
F#7/13 F#7(b13) F#7 F#7(b5)
Criar raiz
B7/4(9) B7(9 #11) B7/9
E se arrancar

G/B Gm/Bb F#m/A
Hora de ir embo.....ra, quando o corpo quer ficar
C#7/4(9) C#7(b9) Am/C
Toda alma de artis....ta quer partir
B7/4(9) B7/9 B7(b9) G#7/13 G#7(b13) G#m7 C#7(b9)
Arte de deixar al......gum lugar
F#7/13 F#7(b13) F#m7 B7/9 B7(b9)
Quando não se tem pra onde ir

E7M/9 E°(7M 9)
Chegar (chegar), sorrir (sorrir)
E7M/9 E°(7M 9)
Mentir feito um mascate
E7M/9 E°(7M 9) E7M/9 E°(7M 9)
Quando desce na estação
E7M/9 E°(7M 9)
Parar (parar), ouvir (ouvir)
E7M/9 E°(7M 9) G#m7(b5) C#7(b9)
Sentir que tatibitate que ba......te o coração
F#m7 Am6 E/G# G°(7M b13)
Mais um dia, mais uma cidade para enlouquecer
F#7/13 F#7(b13) F#7 F#7(b5)
O bem-querer
B7/4(9) B7(9 #11) B7/9
O turbilhão

G/B Gm/Bb F#m/A
Bocas, quantas bocas a cidade vai abrir
C#7/4(9) C#7(b9) Am/C
Pr'uma alma de artista se entregar
B7/4(9) B7/9 B7(b9) G#7/13 G#7(b13) G#m7 C#7(b9)
Palmas pro artista confundir
F#7/13 F#7(b13) F#m7 B7/9 B7(b9)
Pernas pro artista tropeçar

E7M/9 E°(7M 9)
Voar (voar), fugir (fugir)
E7M/9 E°(7M 9)
Como o rei dos ciganos
E7M/9 E°(7M 9) E7M/9 E°(7M 9)
Quando junta os cobres seus
E7M/9 E°(7M 9)
Chorar (chorar), ganir (ganir)
E7M/9 E°(7M 9) G#m7(b5) C#7(b9)
Como o mais pobre dos pobres, dos pobres dos plebeus

F#m7 Am6 E/G# G°(7M b13)
Ir deixando a pele em cada palco e não olhar pra trás
F#7/13 F#7(b13) F#7 F#7(b5)
E nem jamais
B7/4(9) B7(9 #11) B7/9
Jamais dizer
C7M Am F7M B7/4(9) E7M/9 E°(7M 9) E7M/9 E°(7M 9)
Adeus

Chico Buarque / Edu Lobo

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ensaio sobre a solidão


Um medo.
Há em nossas vidas algo que nos atormenta mais do que qualquer coisa. Sempre há. Não há ser humano que ainda não se tenha deparado com o seu maior medo. Todos temos. Basta encontrá-lo. O sentimento de perda me tomou o corpo. Um misto de saudade e amor, de rancor e ódio, de perda e conquista. Eu sabia o que aquela foto era, não sabia o que ela poderia gerar em mim depois de tanto tempo sem pensar no que havia acontecido. As pernas bambearam, as mãos ficaram trêmulas, o peito inchado e os olhos se encheram de lágrimas. Descontrole de emoções. Sentei-me à beira da janela e comecei a chorar como criança. Um velho-criança que chora a perda do estimado presente, ou uma criança-velho que chora a perda do estimado passado? “Fostes assim. Lembras dela? Lembras? Sabes quem ela é”? Perguntou-me com carinho a única pessoa que sabia o que eu estava sentindo. Esta voz que me acompanha e que me alenta nos piores momentos da minha solidão. “Agora, lembro-me. Ela que há tanto havia sumido de minha vida, de minhas lembranças. Porque trouxeste ela a mim?; Para ver-te em prantos. Para por em ti um pouco de vida, velho”! Lembrava-me a cada instante da minha avançada idade e do meu estado de deploro. “Tenho certeza de que tens certo prazer em lembrar-me do que sou; Não! Não tenho prazer como pensas. Sou parte de ti. Eu te pertenço e tu me pertences. Quero que libertes este espírito amaldiçoado que tomou conta de ti nessas décadas dentro deste casarão. Só eu posso te libertar; Não! Não sabes nada de mim. O que pensas?; Ora, não me enfrentes. Sabes que tenho-te dentro de mim e vice-versa. Acompanho-te desde o nascimento. Sabia que serias um homem só. Estou lhe abrindo as portas da tua própria vida. Aceites”!
Ângela.
O rosto da foto era de Ângela. E a minha vida passou em frente aos meus olhos. Lembrei-me de como chovia naquela noite e que escrevia algo, não me lembro o quê. A foto remeteu-me há muito tempo atrás quando conheci aquela mulher: a mulher que me tirou de um canto obscuro qualquer, e me pôs de volta a vida.
Ângela...

Linhares

domingo, 20 de setembro de 2009


.and i have become confortably numb.

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva


- Ontem você estava grávida, de pé ao meu lado no bar, prestes a sentar. Parou por um instante, passou as mãos nos cabelos, amarrou-os, refletiu e sentou-se perto de mim. Por um instante, como num lapso de tempo dentro da memória, lembrei-me o nome da criança.
- Você me ouviu? Você está aí?
- Você dormia ao relento, aos pés de uma grande cruz de ferro. Sentia dores. Podia ver que havia calma e dor no seu semblante. Havia um grande círculo de pólvora ao seu redor.
- Feche a porta. Fique aqui. Escute meus olhos. Mais uma vez. Mais uma vez. Sua vez.
- Pode deixar-me crescer em paz, por favor? Não é uma súplica, é só um jeito sem graça de te pedir mais uma vez: “por favor”.
- Alô? Sim. Sim. Não. O dia ainda continua cinza, mas estou providenciando para ontem uma caixa de pandora, espero que goste. Claro que sim, ficarei de prontidão caso algo dê errado.
- Corra!
- As suas mãos. Veja as suas mãos.
- Pode deixar, telefonarei o mais breve possível para o senhor. Aguardo apenas as instruções superiores para prosseguir. Deverei esperar por aqui? Sim, deverei esperar. Sim, prosseguir para esperar. Tenho de ser o mais breve possível para esperar e prosseguir, e só. Esperar.
- Tire a roupa, por favor, quero vê-la nua. Tem a anca larga, os ombros caídos, os dentes...faltam três, mãos de gente velha, quantos anos tem?
- O senhor me chamou?
- Fique tranqüilo, Jack, o dia apenas começou. Siga aquele carro, depois vire à direita na rua de árvores largas e voe por cima da ponte até pousarmos naquele arranha-céu.
- Adeus!
- O que você falou?
- Aquele meio sorriso falso na verdade não me pareceu um sinal de vai tomar no cu devia ser apenas a mocinha da bicicletinha roxa que atravessava o sinal verde enquanto um taxi laranja cheio de monges tibetanos carecas arrancava sua cabeça com a fúria de um rinoceronte branco de medo de uma manada de abutres negros que se acotovelavam do outro lado da rua de paralelepípedos coloridos do jeito que você quiser na frente de uma vitrine a espera de alguém que os olhasse e pensasse se aquilo era realmente necessário ou se apenas era um rastro de crayon que havia caído do céu e transformado de repente aquele pequeno fragmento de uma longa história das nossas vidas numa estória de livros infantis contados sem a menor graça pela tia da moça da bicicletinha roxa que já rolava rua abaixo embolada metade nas rodas do taxi dos monges que eu já nem tenho mais certeza se eram tibetanos pois agora desciam atrás dos rinocerontes brancos de medo sacando espingardas de balinhas jujubas metade voando nas garras dos abutres que deixaram pra trás a vida mesquinha e rumaram em direção ao tibet em busca de mais moleskines pra anotar suas idéias que verdejavam junto às grades que davam pra frente do parque municipal
- Bom, eu não tenho mais pra onde voar... você vai ficar por aqui?

Linhares

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Trilha de Hoje

Aê, Leprê, essa é pro Breganejo Experimental, beijo.

---

Céu Estrelado – Otavio Linhares

D6 A7 G D6

D6 A7
São esses passos tão certeiros
G D6
que pisam as pedras da minha rua?
A7
Tuas pernas que sanfonam rotas,
G D6
embriagadas de tanto arderem
D7 G
dentro das minhas mãos pequenas
A7 D6
que não conseguem te prender?
A7
Às vezes, são os braços
G
que enlaçam o meu pescoço
D6
como asas de fogo
A7
lambendo meus ouvidos
G D6
com a carne suja da tua língua?
D7 G
Ou teus olhos que vigiam cada metro
A7 D6
quadrado a quadrado do universo:
A7
céu estrelado,
G
por onde eu vago todas as noites
D6
antes de dormir?


Linhares
Vire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz

Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor


Vinícius de Moraes

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva

foto sem crédito



São esses passos tão certeiros
que pisam as pedras da minha rua?
Tuas pernas que sanfonam rotas,
embriagadas de tanto arderem
dentro das minhas mãos pequenas
que não conseguem te prender?
Às vezes, são os braços
que enlaçam o meu pescoço
como asas de fogo
lambendo meus ouvidos
com a carne suja da tua língua?
Ou teus olhos que vigiam cada metro
quadrado a quadrado do universo:
céu estrelado,
por onde eu vago todas as noites
antes de dormir?


Linhares

"Tenho medo da felicidade,
afugento de pouco com pequenas doses de sinceridade
tudo que dela se me aproxima,
porque a realidade é conflituosa demais
pra dar lugar a sua simplicidade terna...

Aliás, não gosto do que é fácil,
e, aliás, não sou fácil comigo.
Prefiro o desafio das inquietações,
o peso das escolhas, as mil caras da vida.
E eu, tenho uma cara honesta
de quem não quer fugir,
e uma cara infiel de quem sabe fingir;
finjo como quem foge de uma sina,
fujo como quem finge que sabe o que quer."


Cínthia Freitas

“Mesmo que nossos lábios não se cruzem novamente,
posso dizer em silêncio tudo aquilo que ficou escondido para sempre...
Haverá momentos em que nossos pensamentos se encontrarão no espaço...
E assim, sentiremos falta de estarmos juntos novamente.”

Janis Joplin

Pré-póstumos não-meus...

00:29. 17/09/2009. Quinta-feira.

Esse poema, do amigo Leprê, eu dedico a você.
(...e você sabe de quem eu estou falando...)

---

você não pisca
não franze os lábios
não respira
até que tua garota surge
assim feito os segundos que
antecedem a composição de
uma melodia
e aí você dança
fica todo babado
a compressa de calor das
axilas dela derretem teu
coração de margarina até
não restar mais do que
um pouco de saliva queimada
ínfima mancha no lençol
você olha pro lado: cadê?
ela sobe, some, assombra
por que não é de outra forma?
depois que você deságua
lentamente, inteirinho
pede licença pra esse ausência
e vai arranhar o espelho do
banheiro até apagar a
própria imagem pra
substituí-la pelo apelo
o apelo, o apelo
agora esse é seu rosto
que não pisca
não franze os lábios
não respira


Leprevost, o Luis Felipe

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Analfabeto Sentimental


O Johnny era um cara assim, meio mal-encarado-de-mentirinha. Gostava de cravar a mão no balcão do bar e falar alto o seu drink predileto, olhando em volta pra ver se alguém notava a sua presença: “põe aí uma dose de Underberg e completa com essa pinga aí do lado”. E puxava pra perto o vidro de Rollmops, que são aqueles ovinhos de codorna enrolados em uma sardinha em conserva, que ficam em cima dos balcões dos bons bares aqui da cidade; metia a mão lá dentro, arrancava dois e jogava guela abaixo, como todo mal-encarado-de-mentirinha deve fazer.
O cabelo do Johnny era uma mistura de puxado daqui, penteado pra lá, gel e topete; a camisa do Johnny era sempre xadrez, manguinha curta pra estufar o bíceps, e com uma Hering branca básica por baixo, também justinha pra definir os peitorais. O Johnny não fazia academia, puxava tudo quanto era coisa pesada pro jardim e ficava de calças jeans e óculos escuros, Raybanzão aviador, sem camisa, malhando no sol enquanto as cocótas da rua passavam em direção ao coreto, e se acotovelavam nas calçadas fazendo comentários condecorosos, diga-se de passagem, sobre o rapazote da casa 3.
Johnny era famoso por nunca ter reprovado na escola, e por nunca ter feito faculdade: vivia de consertar motos, fazer reforma na casa dos outros, marcenaria, encanamento, pintura, “serviços gerais”, ou como as mães e as mães das cocótas gostavam de chamá-lo: marido de aluguel. Éééé, o Johnny sabia como fazer as coisas, e elas sabiam o telefone dele.
Mas tinha uma coisa com a qual Johnny nunca levou muito jeito: mulheres. Com umas era amor, vida, paz, aquela história toda de fim de carreira, como uma boa propaganda de margarina deve ser; com outras era paixão, loucura, cavalgadas pelo mato, viagens loucas e insanas, e no meio disso as suas eternas promessas de um amor perfeito e eterno do qual ele nunca conseguiu dar conta, seja amando, ou apaixonado.
O Johnny teve tantos amores e tantas paixões, que já tinha até se perdido na conta. Na parede do seu quarto, reza a lenda, ele colocou um quadro pra colar uma foto de cada mulher que ele amou, ou se apaixonou na vida. Assim, ele poderia se organizar e não confundir o nome de nenhuma delas quando alguma delas o tentasse surpreender e fazer-lhe uma surpresa! Realmente, o Johnny não se dava bem com surpresas. Minha mãe, certa vez, conversava com minha tia na cozinha sobre um cara que foi visto atravessando correndo o parque central só de cuecas, dizem que saiu no jornal do dia seguinte: “Tarado invade pacata cidade e atenta contra a moral e os bons costumes”. Eu achei engraçado e bem legal alguém correr quase peladão pela cidade, e não só eu, como as cocótas se amontoaram no dia seguinte a procura de um exemplar de algum jornal que trouxesse alguma foto do tal “peladão do parque”. Eu fui descobrir bem mais tarde que se tratava do Johnny fugindo da visita inesperada de um de seus amores. Na hora fiquei feliz de saber que o cara que eu admirava era o famoso peladão, mas não denunciei minha alegria porque minha mãe era uma espécie de gestora dentro da Igreja, e é óbvio que jamais permitiria que eu andasse com um cara como o Johnny. Mas não tardou muito e nos encontramos no colégio, ainda jovens, cursando a sexta série do que chamavam Ensino Fundamental. Eu e o Johnny preferíamos: Fundamental Para Conhecermos Pessoas Que Nos Ajudem A Sair Dessa Mesmice Hiponcondríaca e Neurótica De Cidade Pequena E Provinciana. Hahaha! Até hoje rio muito disso, porque nunca contei ao Johnny que não sabia o que era Hipocondríaca, mas acho que ele algum dia deve ter se tocado: ele era o cara!

(continua)

Linhares

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Núcleo de Dramaturgia Sesi-PR

Cena 3

Alguém sentado em frente à TV. Entra 1.

1 – Não acho que se você ficar sentado aí o dia inteiro as coisas vão melhorar.
De fato, não vão melhorar.
Tenho certeza que não.

(silêncio)

1 – Já pensou em dar uma olhada nos classificados?
Hoje é domingo.

(silêncio)
(1 sai / pausa / 1 volta)

1 – Parou de chover.

(1 pára olhando Alguém)
(1 sai)
(entra 2)

2 – Eu acho que se você ficar sentado aí o dia inteiro as coisas vão melhorar.
De fato, vão melhorar.
Tenho certeza que sim.

(silêncio)

2 – Já pensou em dar uma olhada no canal 12?
Hoje é domingo.

(silêncio)
(2 sai / pausa / 2 volta)

2 – Ainda está chovendo.

(2 pára olhando Alguém)
(2 senta)
(1 volta)

1 – Não acho que se vocês ficarem sentados aí o dia inteiro as coisas vão melhorar.
De fato, não vão melhorar.
Tenho certeza que não.

(silêncio)

1 – Já pensaram em dar uma olhada nos classificados?
Hoje é domingo.

(silêncio)
(1 sai / pausa / 1 volta)

1 – Parou de chover.

(1 pára olhando Alguém)
(1 sai)
(entra 3)

3 – Eu não acho que se vocês...
Alguém e 2 – Pshhhhh!!!!

(silêncio)
(3 senta)
(1 entra)

1 – Não acho que as coisas vão melhorar.
Tenho certeza que não.

(silêncio)

1 – Já pensaram?

(pausa)

1 – Hoje é domingo.

(silêncio)
(1 sai / pausa / 1 volta dentro da TV)

1 – Parou de chover.

(Alguém, 2 e 3 se olham / Alguém muda de canal)

1 – Conheci Flávia no baile. Dancei a noite inteira. Guardei a fotografia no bolso e fui pra casa a pé.

(Alguém muda de canal)

1 – A minha primeira bicicleta eu ganhei quando eu tinha cinco anos. A minha primeira ladeira, quinze minutos depois. O primeiro machucado, vinte e cinco minutos depois da minha primeira ladeira. O meu primeiro namorado não lembra meu nome.

(2 levanta e bate na TV)

1 – Sarah levantou e foi passar o café. Abriu o armário e separou duas xícaras. Janela aberta, cheiro de pão fresco, toalha de cetim e torradas com manteiga. No rádio, Gardel rasga um coração sozinho.

(2 bate na TV violentamente)

1 – Dentro do táxi, Osvaldo lê mensagens em seu celular. Pensando que nesse momento estava atualizando seus sentimentos, ficou cabisbaixo e não viu o que realmente se passava pelo mundo.

(3 sai / 2 continua batendo na TV / Alguém briga com o controle / A TV muda de canal freneticamente fazendo barulhos industriais e atordoantes por um tempo bem longo)
(silêncio / pausa)
(barulho de serra elétrica / sangue e vísceras jorram para fora da TV)
(um apresentador de programa de auditório sai da TV empunhando uma serra elétrica e corre atrás de todos / decapita-os / as cabeças ficam caídas no sofá)

(1 entra limpando a sujeira)

1 – Não acho que se vocês ficarem sentados aí o dia inteiro as coisas vão melhorar.
De fato, não vão melhorar.
Tenho certeza que não.

(silêncio)

BLACKOUT

Linhares

domingo, 13 de setembro de 2009

Peque tudo o que você tem lido
E tudo o que você tem ouvido
Pegue toda pequena informação
Obstruída em sua cabeça
Daí jogue um jogo sensato
Esprema para fora de seu cérebro sobrecarregado
Você se sentirá bem melhor
Quando você limpar sua mente
Eu sei que é chato você tentar
Você perde o controle e gostaria de saber a razão do porquê
Eu sei, é difícil limpar sua mente.
Você perde o controle
A vida termina, você está morto.
Agora você pode me perguntar porquê, porquê um céu tão azul.
De tantas cores em uma paleta
No qual você pode tentar mudar
Seu cenário mental
Há como escapar
Você se sentirá muito melhor quando limpar sua mente
E breve você verá
Um caminho melhor a seguir
Você irá ver a pessoa que você procurava ser
Você tem que ser
Pegue sua nova cabeça
Quando toda aquela merda for apagada
Você se sentirá muito melhor quando limpar sua mente
Eu sei que é chato você tentar
Você perde o controle e gostaria de saber a razão do porquê
Eu sei, é difícil limpar sua mente
Você perde o controle
A vida termina, você está morto.
Sua vida – é um depósito de lixo pecador
Misturado com a merda imprestável acumulada do passado
Agora você foi jogado de encontro a parede
Sua vida – Uma coleção repleta de conceitos
Tantas teorias
Bem dadas a você
E você não dá conta de todas elas
É a sua vida!

É a sua vida!


Nothing

Life - I was a lonely man
with my lead boots nailed to the floor
dancing the best that I can
Sweets-took the pain away
I saw a cold death at the end of the line
so I started to pray
Up towards the sky but knew no one would
answer me. I asked the trees why they
grew toward the sun. I asked the clouds
and they rained down bad luck on me
Oh my god why hath thou forsaken me
I asked the teachers who taught me rules
to obey. I asked the gaes and prophets
through time. Came up nothing but
a hole where my faith had laid no
reason, no rite......nothing feels fine tonight
crime it was a price to pay
I found the hole world as guilty as I
It took the danger away
Hate-it was so easy to do
You just directed all your anger at fear
and then you follow it through
I went to churches and schools to decide
for me. I went to prophets to plea for
my life. Went to my parents who gave
this dark life to me. I don't need to
I don't want to. I don't want to
wonder why. If you don't want to
hear my problems well you can fuck
off and die. You do not know. Dont
say you know. Give me some answers
for my life.... now got some explaining to do
I've got to come up with solutions in time
before my future is through
Hope - for my new promise today
Still I got this strane feeling that
time is slowly slipping away...

Fletcher Dragge, Jim Lindberg, Jason Matthew Thirsk, Byron Mcmackin, Randy Bradbury
Pennywise

sexta-feira, 11 de setembro de 2009



PRECISA-SE URGENTE
DE UM MORIENTERAPEUTA!

LIGAR PARA (41) 9911-8664
OBRIGADO,
OTAVIO LINHARES.

Analfabeto Sentimental


.todo dia de manhã é a nostalgia das besteiras que fiz ontem.

Analfabeto Sentimental


Carol estacionou o carro em frente ao shopping da alameda. Eu estava sentado na mesa número quatro do café, como de costume, lendo um manual das boas práticas culinárias, que é pra aumentar a diversidade dos tempêros dos macarrões instantâneos lá de casa. Chovia pra cacete e não demorou muito pra que um dos cuidadores de carros lhe abrisse a porta com um guarda-chuvas em mãos, num galanteio meio desengonçado, mas servil, de uma certa forma. Ela esticou as pernas pra fora do carro e de súbito pode-se ver que estava vestindo um terninho preto com uma camisa branca que combinava com uma sainha preta médio-curta, sabe como? Aquele tamanho que você não vê nada, mas imagina tudo? Que é quando os marmanjos que estão sentados nas mesas de fora do café ao lado, começam um ritual de cotoveladas e apertões nos braços e nas pernas uns dos outros, provavelmente, pra ver quem faz o comentário mais estúpido sobre as moças que desfilam de um lado para o outro da alameda de paralelepípedos e petit pavé escorregadios, até o momento em que um dos garanhões gasta o seu último e sôfrego latido com algo do tipo: "se fosse minha mãe, mamava até os quarenta". Beleza, hein, meu rapaz?! Agora sim! Agora, vamos todos rir e voltar a falar de fórmula 1. É nessa hora que eu perco a concentração. Está lá, algo escultural, feito à mão por artesãos japoneses, o tipo de obra que se admira em silêncio por horas a fio, como aquelas obras do Magritte, que de tão penetrantes são capazes de nos deixar extasiados por dias e noites seguidas, e a cachorrada não consegue conter sua fúria animal, seu desejo insaciável por sexo, sexo e depois mais sexo, ou talvez, por uma boa partida de futebol, que é o que eles vão dizer pras respectivas mulheres quando chegarem em casa depois "do trabalho".
- Mais um café?
- Não, obrigado.
Mas, o objetivo não é apenas o sexo? Preciso rever meus conceitos!
Então, ela esticou as belas pernas pra fora do carro e caminhou em direção ao café, contrariando minhas expectativas. Passou ao lado da matilha, que perplexa, por um momento ficou calada, de vergonha talvez, ou porque nós homens somos assim mesmo, cães que ladram e não mordem, e sentou-se na mesa oito, que é a mesa logo atrás e ao lado da minha. Deu pra sentir o seu perfume, uma mistura de baunilha com almíscar, que me fez esquecer por um momento as benditas dicas culinárias do chef Bertrand.
- Uma água sem gás e sem gelo, por favor.
Remexeu na bolsa e puxou um daqueles cigarrinhos de mulher que fedem mais que ônibus em dia de clássico de futebol, e acendeu com um isqueirinho muito meigo de prata que tinha gravado as letras P A R I S. Sugestivo, eu achei. Nunca fui a Paris, mas, talvez, voltaria com os bolsos cheios de trufas brancas e não com isqueiros de souvenir. Enfim, este, definitivamente, não é meu problema.
(continua)

Linhares

Revista Lama


aê, leprê, para o dia das crianças, que tal, um Moleskine igual ao do Fabios?!
*fabiano vianna é idealizador e editor da revista lama, e não larga o Moleskine.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ao amor, seja como for...

SIGNS



A simple short film about communication.
Created by Publicis Mojo and @RadicalMedia
Director: Patrick Hughes
http://www.patrickhughes.com.au/

...e a cabeça é um labirinto...

Trilha de Hoje

Qualquer coisa



Caetano Veloso

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva



Nos ladrilhos que eu escrevi o teu nome,
hoje reside apenas a lembrança mal calada
do teu cheiro que já nem me lembro mais.
Sofro de analfabetismo sentimental, sabe?
Lembra?
É que eu já não sei mais.
Porque saber já perdeu o jeito gostoso de ter alguma sapiência;
sabe a ciência?
Sabe quando saber já não importa mais?
Você sabe alguma coisa mais?
O abajur da sala queimou e parou de pôr luz dentro de casa.
Não dá pra substituir, nem trocar.
Agora que não volta mais, sabe?
Agora que já se foi o sol e está frio?
É agora que eu abro aquele papelzinho com o teu nome
e escrevo mil e duzentas palavras
que começam com a primeira letra do teu nome,
só pra gastar meu latim, sabe?
Enfim, já estou com saudades, sabe? saudades... saudades, sabe?
saudades.


Linhares

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva

Talvez,
eu nunca mais volte aqui pra te dizer.
Talvez,
eu nunca devesse ter te visto,
ou até mesmo,
ter dito pra ti.
Talvez,
a única coisa que tenha sobrado
e, mesmo assim,
ainda é muito,
tenha sido nossos olhares,
que chamaram a atenção de todos que ali estavam...
...só para nós.

Linhares

Trilha de Hoje

MEU AMOR, ME ESPERA

E/G# E/G F#M7 B7/13 E/G# E/G F#M7 B7/9b

E/G# E/G
Meu amor, me espera
F#M7 B7/13
Que eu te trago flores.
E/G#
Oh, Rosa!
E/G# B7/9b
Me espera, que eu te trago flores.

E/G# Dbm7
Todos aqueles teus retratos
F#M7 B7/13
Em branco e preto trouxeram pra mim
E/G# Dbm7
Uma lembrança mal calada
F#M7 B7/9b
Com quatro notas, nove nomes e afins.

E/G# Dbm7
Como se assim por bons minutos
F#M7 B7/13
Teu corpo envolto estivesse com o meu.
E/G# Dbm7
E numa mágica, ou numa gargalhada
F#M7 B7/9b
Meus braços voltassem pros seus.


E/G# E/G
Meu amor, me espera
F#M7 B7/13
Que eu te trago flores.
E/G#
Oh, Rosa!
E/G# B7/9b
Me espera, que eu te trago flores.

E/G# Dbm7
Cecília, Renata Maria, Carol,
F#M7 B7/13
Yolanda, minha Beatriz.
E/G#
Menina Lola,
Dbm7
Pequena Luíza,
F#M7 B7/9b E/G#
São todos os rostos que eu tenho guardados pra mim.

E/G
...me espera
F#M7 B7/13
Que eu te trago flores.
E/G#
Oh, Rosa!
E/G# B7/9b
Me espera, que eu te trago flores.


Otavio Linhares / Alexandre Zampier / Janaína Matter / Sol Faganello

Pré-póstumos não-meus...

Davi Sartori e Alexandre França - Porta-retratos
Lançamento do CD "Música de Apartamento" no teatro Paiol



Porta-retratos

Fósforo aceso na madrugada
Uma carta de adeus queimada
Calada mais de uma vez por dia
Flores perdendo o tempo
De serem dadas envelhecendo
Nas cinzas que a tarde fez
Da vida
Pétala a pétala, conto todas as pétalas
Arrancadas da rosa que eu guardei
No armário
Uma lembrança do mar de espinhos
Que chuva tempestuosa da despedida
Detém num raio
O apartamento que abandonei
Toda a mobília que eu não usei
Como sumir do porta-retratos
Que você guarda na sua mesa
Mas o dia amanheceu
O dia amanheceu
Amanhecer o dia me faz muito bem
Faz muito bem.

Octávio Camargo, Alexandre França e Thadeu Wojciechowski

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva




ontem
você levantou pra pegar um café
eu fiquei imaginando
as diferentes formas
de amar.
uma é consenso:

pra sempre.


Linhares

Pré-póstumos não-meus...

notas para um livro bonito

só é ilusão
aquilo que
não esqueço
o resto
foi real

Leprevost, o Luís Felipe

“Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…”

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Versos Cotidianos de um Delírio em Conserva


...

Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços o que eu nunca esqueci
Você foi dos amores que eu tive
O mais complicado e o mais simples pra mim.
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu
E é por essas e outras que a minha saudade
Faz lembrar de tudo outra vez.
Você foi a mentira sincera
Brincadeira mais séria que me aconteceu
Você foi o caso mais antigo
O amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.
Esqueci de tentar te esquecer
Resolvi te querer por querer
Decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade
Sem nada perder.
Você foi toda a felicidade
Você foi a maldade que só me fez bem
Você foi o melhor dos meus planos
E o pior dos enganos que eu pude fazer
Das lembranças que eu trago na vida
Você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.